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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Sobre rimar Amor com Dor




Certa vez, muito antes de lançar o meu primeiro livro, eu conversava com um amigo, bastante culto, por sinal. Não me recordo como surgiu o assunto, mas em certo ponto da conversa, comentei que andava me aventurando na poesia. O meu amigo não demonstrou grande interesse, mas convidou-me educadamente que lhe enviasse alguns poemas.
No mesmo dia, enviei a ele alguns poemas. Dois dias depois, recebi a resposta.
Em resumo, dizia que tinha gostado muito do poema. Leu e releu várias vezes e teve uma surpresa muito agradável, pois, segundo ele, “quando você disse que era poeta, achei que era daqueles que rimava amor com dor”.
Esta frase ainda me marca muito. Nestes anos todos produzindo literatura, não foi só dele que ouvi tal jargão; até hoje tento entender qual é, afinal, o problema em se rimar “amor” com “dor”?


O preconceito contra a rima


Hoje em dia há um grande preconceito contra as poesias rimadas, mas por que, em especial com “amor” e “dor”, a crítica é mais acentuada?
Tecnicamente falando, é uma rima aguda, perfeita, pobre. Não vejo diferença para as demais infinitas rimas que existem.
Na minha opinião, a rima é um recurso muito mais de sonoridade do que de significado. Assim, não considero nenhuma rima ruim, nem piegas. Toda a construção do verso conta: métrica, ritmo e rima. É muito banal condenar um bom verso por terminar com essa rima. É a mesma coisa eu condecorar um verso ruim só por ele conter uma rima preciosa.
Ao contrário do que parece, rimar “Amor” e “Dor” não é fácil. São palavras cujos significados quase se complementam, mas ao mesmo tempo, são palavras amplas, metafóricas, abrangentes. Podemos, em uma poesia, criar muitos cenários diferentes para esta rima. Podemos contar muitas histórias diferentes, sentimentos diferentes, metáforas diferentes. Um bom poeta sabe rimá-las com maestria e enriquecer o seu poema. No fim das contas, é uma rima como todas as demais, nem melhor e nem pior.

Poetas medíocres?


Para os muitos, como o meu amigo, a rima de “amor” e “dor” está ligada a poetas medíocres. Não sei quando esta depreciação começou, mas é generalista e exagerada. Pois bem, vamos considerar medíocres aqueles que usam esta rima? Observem os exemplos abaixo:

“Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...”
(Fernando Pessoa – “Amei-te e por te amar”)

“Cuidas tu que a rosa chora,
Que é tamanha a sua dor,
Quando, já passada a aurora,
O Sol, ardente de amor,
Com seus beijos a devora?
- Feche virgíneo pudor”
(Almeida Garrett – “A Délia”)

“Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!
– Não negues
Não mintas...
– Eu vi!...”
(Casimiro de Abreu – “A Valsa”)

“Amemos! quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!”
(Álvares de Azevedo – “Amor”)

“E tu me dizes, pálida inocente,
Derramando uma lágrima tremente,
Como orvalho de dor:
"Por que sofres? A selva tem odores,
"0 céu tem astros, os vergéis têm flores,
"Nossas almas o amor".”
(Castro Alves – “Confidência”)

                Pois é. De acordo com o meu amigo e com muitos outros “críticos”, podemos chamar Fernando Pessoa, Casimiro de Abreu e Castro Alves de medíocres. Estes são apenas alguns exemplos, de tantos outros mestres que utilizaram a rima em questão.
                Olhem o contexto das rimas, a qualidade dos versos. Medíocre é o crítico ou o criticado? Certamente o crítico.

Grito de Liberdade


                Em um dos meus mais premiados poemas, chamado “Grito de Liberdade”, eu também abordei este assunto, como neste trecho abaixo:

“Se eu quero rimar
Os substantivos,
Não adjetivos,
Que mal que isso tem?
A palavra amor
E a palavra dor
Têm o mesmo som,
São rimas também.”

Desafio aos leitores


                Pois bem, meus caros, o que acharam da coluna? Aguardo os comentários de vocês. Se tiverem algum verso que rime “Amor” e “Dor”, seja de autoria própria ou de um poeta que vocês gostem, postem aqui. Vamos celebrar a rima destas palavras tão lindas, complementares e presentes em nossas vidas.


Um grande abraço,




10 comentários:

  1. Olá Leandro!
    Adorei a coluna, não conhecia e amei! Sou péssima em rimas, mas adoro rimas nas musicas, poesias, cronicas, contos, enfim, acho rimas super criativas e inteligentes e nada medíocres, pois não é fácil encontrar rimas para tudo!Bj
    http://colecionandoromances.blogspot.com.br/

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    1. Oi Sophia! Que bom que gostou da coluna. Concordo com você, uma rima nunca é medíocre, é sempre muito difícil, mas quando ela aparece, deixa o texto muito bonito, seja qual for, não é mesmo?
      Bjs
      Leandro

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  2. Oi Leandro.

    Que postagem maravilhosa! Há um bom tempo que não lia poesias e nada medíocres, mas precisam ser mais valorizadas. Principalmente Fernando Pessoa e Castro Alves. Parabéns pela postagem, foi uma leitura muito agradável.

    Bjos

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    1. Oi Kênia, fico feliz que tenha gostado. Concordo com você...ler mestres como Castro Alves e Pessoa é algo sempre especial e agradável.

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  3. Gostei do debate do post, não sabia aue havis esse preconceito, que realmente é torpe, ambas as palavras se completam, mas nem todos conseguem faze-las rimar com emoção, há ums riqueza entre o amor e dor, juntos fazem frases belas, que ecoam na alma, pena quem tem um preconceito assim, pois perde de conhecer poesias lindas como as citadas no post.

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    1. Olá Sammysam! Há muita riqueza em "amor" e "dor". Elas podem ser usadas em muitos cenários, conseguem um enorme alcance de sentimentos. Ainda mais quando caem nas mãos de mestres, como os dos poemas citados, algumas delas parecem feitas especialmente para nós, não é mesmo?

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  4. Eu adoro poesias, e confesso que não sabia desse preconceito. Sabe que eu adoro poesias com rimas? Acho muito fofo, hahahaha. Se eu fosse poeta com certeza iria ter vááárias. :P
    beijos
    www.apenasumvicio.com

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    1. Oi dessa! Pois é, infelizmente o preconceito é real. Que bom que você adora as poesias com rimas, são minhas prediletas também! Você deveria tentar escrever umas rimas, o que acha? Se surgir a coragem, manda pra mim, ficarei honrado em ler e dar umas dicas =)

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  5. Oi Leandro. Gostei do tema que você abordou e nem imaginava que havia essa implicância com uma "simples" rima. Ao começar a ler o post, ate imaginei um pouco que o preconceito se deva com os sentimentos que as palavras trazem, do peso de se igualar amor e dor. Viajei um pouco né? rs

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    1. Oi Nathália! Essa implicância é muito inconveniente, né?
      Você não viajou não, o preconceito vem daí mesmo, de se achar que na poesia, amor e dor são palavras batidas, mas ao contrário, acho elas ricas e intermináveis. Espero continuar vendo elas brilharem em poemas quando a gente for velhinho!

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