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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

10 livros de poesia que você precisa ler - Parte 1


           Com a morte do poeta Ferreira Gullar (1930 – 2016), muito se falou sobre a lacuna que fica na poesia tupiniquim. Muita gente, inclusive, chegou a dizer que com ele, morria também a poesia brasileira. Gullar era uma das vozes mais originais e representativas da poesia brasileira a partir da segunda metade do século XX, mas sobre este exagero, eu discordo!
Temos, claro, que reconhecer que a poesia brasileira não anda em seu melhor momento de criatividade e popularidade. Carecemos de grandes nomes, como os que tivemos em um passado não tão distante. Todavia, há neste deserto um oásis de gente jovem, boa e talentosa produzindo uma poesia de excelente qualidade. Motivado por este cenário, resolvi listar 10 livros imperdíveis de poesia, produzidos na última década. As regras desta lista são simples: livros lançados nos últimos 10 anos e por poetas ainda vivos.

                Antes, uma pequena observação. Listas são complicadas pela subjetividade. Os livros aqui listados são um gosto pessoal meu. Assim, se algum dos seus livros preferidos não estiver na lista, de antemão justifico: ou eu ainda não o li, ou eu o li, mas não achei tão bom quanto os 10 que vou apresentar aqui. Então, escreva sobre ele nos comentários. Um objetivo da coluna é incentivar a leitura de poesia. Contribua também!

                A lista será apresentada em duas partes. Começaremos hoje com as posições 10 a 6. Na próxima quarta-feira, o TOP 5.


10 – A Voz do Ventríloquo (Ademir Assunção, 2012, Ed. Edith)


          Este livro já carrega um grande título nas costas por ter vencido o prêmio Jabuti de poesia, em 2013. Isto, por si só já seria o suficiente para torná-lo atrativo. Mas este livro é mais que um prêmio. Contém poesias fortes, objetivas, muitíssimo bem construídas. São ao todo 57 poemas, divididos em 9 partes. Como o próprio título sugere, a figura do ventríloquo permite ao autor escrever poemas assumindo vozes diferentes, dando-lhe a liberdade de variar poemas entre o extremo lirismo e a extrema coloquialidade. Seus poemas têm também uma oralidade muito marcante, como música, tamanha capacidade melódica dos versos. Em um dos meus favoritos, chamado “Balada para Chatotorix”, ele faz uma ironia aos críticos de arte. Segue um trechinho:



“Bravo! Balança a pança um crítico
sancha. Grande poema!
Sim, penso eu, um poema
digno de pena! E que poeta crica!
rumino, de ressaca, na maior larica.”

09 – Um útero é do tamanho de um punho (Angélica Freitas, 2012, Ed. Cosac Naify) 

            
               Este livro é uma joia. O feminismo domina a temática da maior parte dos versos, mas não aquele feminismo exagerado e extremista. Trata-se de um feminismo ponderado e honesto, que defende a mulher, seu papel na sociedade, sua busca por igualdade, pela liberdade de agir, vestir-se, comportar-se.
                É como um grande grito de liberdade. Um livro fantástico, sem dúvidas. O tom que a autora usa é do humor ácido, do início ao fim, com boas sacadas e ironias (algumas vezes ela escreve na voz de um homem). São 37 poemas, divididos em 7 partes. Segue um trechinho:



“os homens, as mulheres nascem crescem
veem como os outros nascem
como desaparecem
desse mistério brota um cemitério
enterram carcaças depois esquecem”


08 – A Espiral (Tuca Rosa, 2012, Ed. Kazuá) 

  Conheci a Tuca em um sarau na Editora Kazuá, em São Paulo. Sorridente, simpática e muito solícita, eu jamais imaginaria a força poética que existe dentro dela. Bastou declamar seus primeiros versos para que atingissem diretamente o fundo da alma. Que lirismo! Que ímpeto! Que imagens! Assim que ela terminou, fui me informar sobre o livro. Era “A Espiral”.
   É o seu livro de estreia, mas parece uma veterana. Ela toca em inúmeros temas cotidianos e poéticos, como o tempo, a morte, a vida e a inserção na sociedade. Trabalha a linguagem com cuidado, delicadeza, uma sutileza a cada elemento poético. 
 Livro surpreendente a cada página, escrito sob medida. São 70 poemas, divididos em 7 partes.
         Eu tenho grande apreço por rimas. Tuca utiliza, em alguns momentos, rimas belíssimas, sonoras, marcantes. Por todo esse conjunto, considero um dos 10 grandes livros de poemas que li na última década. Segue um trechinho:

“a voz mais funda é no silêncio
a dor mais funda não se diz
o que não tem palavra é que grita
o que não volta mais é que fica”


07 – Rua da Padaria (Bruna Beber, 2013, Ed. Record)

          Este livro é um convite para retornar à infância. Ele tem um tom saudosista, por vezes melancólico, mas de uma melancolia boa, não ruim. A poetisa faz várias referências à infância e adolescência, do lugar onde cresceu e aprendeu a conhecer o mundo.
                É muito engraçado ler poemas de uma época que a tecnologia ainda não dominava tanto as nossas vidas, como os anos 90. O livro é cativante do início ao fim. A ordem dos poemas foi feita com maestria pela autora, porque você não consegue parar de ler. Temas como brincadeiras de infância, primeiros amores, encontros, paqueras e a passagem para a vida adulta dominam o conteúdo dos 26 poemas desse maravilhoso livro. Segue trechinho:



“1. O apagador
tique – de checar o bolso
o email o telefone
o relógio angustiado
exercício da ilusão
de acelerar de contar
regressivamente os passos
que me levam à hora
que marcamos – taque.”

06 – Ligue os Pontos (Gregório Duvivier, 2013, Ed. Companhia da Letras)

            O que mais me fascinou neste livro foi a capacidade do poeta em extrair poesia de fatos absolutamente comuns. Os poemas aqui são diferentes do que se vê por aí. Eles têm uma linguagem própria, uma característica própria.
                O tom coloquial é incrível, faz parecer que o Gregório dialoga conosco através dos versos. Ele é um grande humorista e roteirista, mas neste livro não achamos o humor tão fácil: ele está ali, mas escondido, sutil, irônico. Com um grande domínio da língua, ele consegue, como já dito, extrair poesia até de uma mera descrição de linha de ônibus que passa por Copacabana. Grande livro! São 34 poemas de pura originalidade. Segue trechinho:



"o mês de agosto parece o bairro
de são conrado: é difícil atravessá-lo
às vezes demora meses sobretudo
quando chove mas é inevitável
passar por ele – é inevitável”


         Estão gostando até aqui? Deixem suas impressões nos comentários! E na quarta-feira que vem, não percam a parte dois desta lista, com o TOP 5 de poesia da última década!





16 comentários:

  1. Tenho vergonha de admitir, mas não curto poesia....
    Talvez seja pura ignorância, ou só não curta mesmo.
    Mesmo assim, tento ao máximo manter a mente aberta.
    Suas dicas de livros são bem interessantes e quem sabe um dia.... :D

    beijinhos!!

    Ana
    https://literakaos.wordpress.com/

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    1. Oi Ana! Obrigado pela participação!
      É importante manter a mente aberta, mas eu entendo casos com o seu, a poesia não faz muito esforço pra ser interessante nos últimos tempos...culpa dos poetas! Mas torço pra que você se encoraje um dia, porque tem coisa boa sendo produzida, viu? Aí quando você der a primeira chance, não vai querer mais largar!
      Bjs!

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  2. Oiee Leandro ^^
    Lendo o seu post agora, parei para pensar e percebi que nunca li um livro de poesia. Claro, já li várias poesias e poemas, mas nunca um livro só disso. Fiquei chocada *-* Já tinha visto a capa de "Ligue os pontos" antes, e tenho curiosidade de conhecer. Na verdade, fiquei curiosa para conhecer todos os citados acima...haha' títulos anotados ;)
    MilkMilks ♥

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    1. Oi Dryh, obrigado pela participação!
      Puxa, não acredito! Hahaha, então agora é missão, hein! Ler um livro inteiro de poesia! Ler poemas esparsos é legal também, mas dentro de um livro é diferente. Eles pertencem a um contexto, uma ordem...estão lá por algum motivo, isso muda bastante a interpretação. Espero que se encoraje, "ligue os pontos" é uma ótima opção para você quebrar esse tabu.
      Abraços!

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  3. Hey Leandro!
    Adoro poesia, mas não tenho o hábito de ler livros sobre isso, costumo procurar algumas internet quando estou em busca de inspiração.
    Já tinha ouvido falar do livro "Um útero é do tamanho de um punho", após a sua indicação fiquei com vontade de ler, adorei esse trechinho que você selecionou!
    Fiquei curiosa para conferir o Top 5.

    Beijos... Samantha Culceag.
    Só pra Menores

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    1. Oi Samantha, obrigado pela participação!
      Que bom que gosta de poemas e que está prestigiando a coluna. Ler poemas é gostoso, seja em livro ou seja esparso. A diferença, na minha opinião, é que dentro de um livro ela adquire mais significados, dependendo da ordem e da temática geral.
      Quarta-feira não perca o TOP5! Ah, e recomendo muito o livro do útero!
      Beijos!

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  4. Olá!!

    Eu não sou muito fã de poesia... Quer dizer, gosto, mas não é meu estilo literário favorito. Prefiro histórias continuas... Porém, é sempre bom conhecer novos livros e deixei alguns anotadinho aqui.


    Beijihos

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    1. Oi Ana! Obrigado pela participação!
      Sabe, eu entendo, tem quem prefira mesmo o livro de histórias contínuas, porém, há alguns livros de poesia que têm esta proposta, mas em forma de poesias! No TOP5, que vou postar na semana que vem, tem um exemplo deste tipo de livro. Quem sabe você não goste mais assim? Vale tentar!
      Beijos!

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  5. Bom, preciso dizer que tenho problemas sérios com poesia, tenho uma enorme dificuldade de me envolver com textos do gênero e dependendo do caso nem consigo entendê-los. Dos livros que você apresentou, talvez me animasse a ler A espiral, da Tuca, porque gostei do trechinho que você colocou.

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    1. Oi Ju! Obrigado pela participação!
      A Espiral é sem dúvidas uma grande escolha! Sobre os seus problemas com a poesia, pode ter certeza que é muito comum, e a culpa não é sua, é dos poetas. Sim, pois a poesia hoje tem esse impasse de se manter sempre inacessível, de tal forma que as vezes só o poeta entende o que está escrevendo. Aí que a poesia se afasta do grande público. Mas começa pela Espiral, todos os livros que coloquei são livros ótimos e entendíveis.
      Beijos!

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  6. Nunca li um livro inteiro de poesia, apesar de adorar! Sua lista serviu para me dar dicar de quais livros pegar para ler. Curti todos, e com certeza irei ler caso tenha oportunidade, não conhecia nenhuma das obras. Adorei o post!
    beijos
    www.apenasumvicio.com

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    1. Oi Dessa! Obrigado pela participação!
      Que ótimo, o intuito da lista era justamente fomentar a vontade de ler poesia! Todos são ótimas dicas, não perca os próximos 5 livros que vu indicar na quarta-feira!
      Beijos!

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  7. Oi, tudo bem?
    Concordo que poesia não é tão popular por aqui e me incluo nessa. É um gênero que não me atrai em nada, vez ou outra leio uma e é raro gostar.
    O único que eu poderia pensar em ler seria o nove, pela temática.
    Mas parabéns pelo post :D

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    1. Olá! Obrigado pela participação!
      Que ótimo que gostou do post! Eu entendo esse afastamento da poesia, sabe? Concordo que hoje há gêneros mais atrativos e que a poesia precisa de reinventar. Os maus poetas, aqueles que aproveitam a liberdade do modernismo para produzir qualquer coisa e chamar de poesia, esses afastam o público. A ideia desta lista é separar alguns livros com poesia de verdade e incentivar vocês. Se você se animar e começar pela 9, eu já fico feliz!

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  8. Oi Leandro, tudo bem?
    Eu não sou leitora de poesias, desde os tempos de escola que não leio mais, acabei priorizando a ficção. Mas eu gosto muito. Por esse motivo, não conheço nenhum da sua lista e não posso contribuir com ela também. Apenas posso dizer que de todos quem me tocou foi Tuca Rosa. Gostei muito do que ela falou e da forma como se expressou.
    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

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    1. Oi Cila! Tudo bem e você? Obrigado pela participação!
      Ficção é um gênero muito legal também, eu adoro, mas confesso minha predileção pela poesia. A poesia tem o dom de tocar a gente em poucas linhas, sabe? Por isso alguns comentaram o agrado por alguns livros, outros por outros, e isso é o grande barato! Tomara que se anime e dê uma chance ao livro da Tuca, você não vai se arrepender!
      beijos!

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